domingo, 28 de abril de 2013

Eis-me aqui, envia-me: o protagonismo juvenil e a Campanha da Fraternidade


“O rosto de Deus é jovem também /E o sonho mais lindo é ele quem tem/ Deus não envelhece, tampouco morreu/ Continua vivo no povo que é seu/ Se a juventude viesse a faltar /O rosto de Deus iria mudar.” (Jorge Trevisol)


Eis-me aqui, envia-me (Is. 6,8) é o lema da Campanha da Fraternidade 2013, cujo tema é Fraternidade e juventude. Neste ano em que vivenciamos o ano da fé, instituído pelo então papa Bento XVI, a Igreja do Brasil se volta para a juventude, lugar teológico privilegiado, e suas diversas realidades no mundo contemporâneo. As vésperas da Jornada Mundial da Juventude, a temática proposta pela CNBB, anuncia a esperança do amanhecer, ao convidar os jovens a ir ao encontro de outros jovens, anunciando a Boa- Nova que é Cristo Jesus, “caminho, verdade e vida (Jo 14,6)”.

Com efeito, o tema “juventude” não nos é novo. Ao contrário, nos faz rememorar os primórdios dos anos de 1990, momento em que segundo a CNBB, a “Igreja se volta para as situações existenciais do povo” [2]. Com o tema: Juventude e caminho aberto, convidou-se os jovens à época a assumirem o papel de protagonistas na sociedade, a serem “abertos, conscientes, bem esclarecidos”[3], a juntarem as mãos, caminhando em união.

Depois desse brevíssimo retrospecto sobre a juventude na campanha da fraternidade, podemos traçar um paralelo entre as duas realidades: uma que convida o jovem a se doar à causa da vida, a ser um protagonista no meio aonde vive; já a outra o convida a ser um elo de ligação entre Jesus e muitos outros jovens, tornando-se discípulo missionário da Nova Evangelização, reconhecendo nesse mesmo jovem a eficácia de um testemunho de santidade. Além disso, convém destacar que os tempos são outros e o contexto no qual se emergem as necessidades de uma juventude que “quer ter voz, ter vez e lugar” também mudaram. Segundo o Documento de Aparecida, “vivemos uma mudança de época, e seu nível mais profundo é o cultural. Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus.”[4]

Para aprofundar mais essa questão, basta nos perguntar: o que é ser jovem nesses distintos contextos? Acreditamos que este caminho nos auxiliará a compreender o protagonismo juvenil e sua atuação na sociedade e nos meios eclesiais. Nos anos de 1990, por exemplo, houve um aumento considerável no envolvimento (por que não engajamento?) dos jovens em grupos culturais e artísticos. Assim, muitos destes se envolveram em atividades ligadas à dança, ao teatro e à música, possibilitando, assim, criar um traço comum entre essa geração: o sentimento de pertença a uma “tribo” e facilidade em transitar por diversos grupos, sem que isso venha a afetar sua identidade. Entretanto, essa mesma juventude, diferentemente das gerações que antecederam, vem perdendo a sua dimensão política, em prol de valores mais individualistas. Na atualidade, esse mesmo individualismo, valor cultural da sociedade moderna e pós-moderna, se acentua, criando obstáculos para a vida em grupos, haja vista a perda de referências, aceleração do tempo e falta de comprometimento político. Por outro lado, como nos mostra o texto base da CF 2013, o “novo milênio trouxe novas temáticas, novas maneiras de se relacionar e de se organizar, com as novas tecnologias de informação e de comunicação.”[5] Neste sentido, a juventude busca, ao seu modo, exercer o seu protagonismo, aliando-se aos meios em que dispõe.

    Na contramão da pós-modernidade, da aparente fluidez e da perda de referências, constatou-se que as expressões religiosas se constituem em um locus por excelência da juventude, de sua interação social e agregação. Segundo os dados do censo de 2010 do IBGE, o percentual de jovens que não possui religião se reduziu. Tal fenômeno aponta para suscetibilidade e, também sensibilidade, dos jovens que tendem a propostas religiosas mais radicais na relação com o sobrenatural.

Para o Documento da CNBB “Evangelização da Juventude”: “Em nossa Igreja há presença significativa de jovens em vários setores da vida eclesial: nas comunidades eclesiais de base e nas paróquias, participando das equipes de liturgia e de canto, atuando como catequistas, em diversas pastorais”.[6] Ora, tal afirmativa aponta para a preferência afetiva e efetiva, por parte das estruturas eclesiais, pelos jovens, sobretudo os mais empobrecidos.

     Partindo da premissa de que a juventude está no coração da Igreja, consideramos que a comunidade eclesial adota a postura de mãe que educa na fé e propõe o seguimento a Jesus Cristo, inserindo-os na lógica de discípulos-missionários. Ela deve ser para o jovem o local de conhecimento, partilha e amizade, que promove o amadurecimento destes jovens em “estatura, sabedoria e graça”. Sobre este assunto, o papa Bento XVI, em 2007, proferiu aos jovens brasileiros: “Saibam ser protagonistas de uma sociedade mais justa e mais fraterna inspirada no evangelho, promotora da vida, eliminando discriminações existentes nas sociedades latino-americanos”.[7]

     De fato, todos os esforços que antecederam à Campanha da Fraternidade 2013 pontuaram o valor da juventude e o seu teológico. A criação da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude, criada em 2011 pela 49ª Assembleia da CNBB e a indicação para sediar a Jornada Mundial da Juventude vem nessa direção, reforçando a identidade jovem na Igreja no Brasil.

     É por isso que a CNBB reafirma, nesse ano de 2013, sua aposta no jovem. Eis-me aqui, envia-me (Is 6, 8) significa entrega sem medidas a Deus e ao Reino dos céus. Frase proferida pelo jovem Isaías, no momento em que aceita a missão de se tornar profeta de Israel, hoje, somos convidados a responder a esse chamado, a sermos anunciadores e construtores de um mundo novo.

     O jovem representa vigor e mudança, mas também protagonismo. Por essa palavra, compreendemos que o ato de protagonizar é uma qualidade de quem se destaca. Sendo assim, o protagonista é aquele que participa ativamente na sociedade e na Igreja, que visa à construção de um mundo melhor e mais justo. Evidentemente, para que isso ocorra é necessário compromisso social, que vem como um produto dos processos educativos para a fé. A Igreja está atenta aos clamores de uma juventude que padece frente às desigualdades sociais e as demandas da atualidade. A violência e o extermínio dos jovens, bem como o tráfico de drogas que vem dizimando parcelas consideráveis da juventude brasileira, vêm despertando a atenção de tantos outros jovens empenhados na erradicação desses flagelos.[8]                                              
         Além disso, esses mesmos jovens são convidados a serem protagonistas nos meios onde o debate entre fé, razão e ciência são frequentes. O testemunho verdadeiro e a vivência pautada no Evangelho os capacitam a defender sua fé nestes locais. De igual modo, os meios tecnológicos também representam um convite a estes, já que o jovem representa o novo.

            Por fim, foi possível esmiuçar nas linhas acima as permanências e mudanças de uma juventude que tem lutado por seu valor na sociedade. Seguindo os ensinamentos de Cristo, pão de igualdade, esses jovens tem remado contra a maré, protagonizando nos meios digitais, eclesiais e sociais a beleza de ser jovem, configurando a face de um Deus jovem.






 Fotos: Campanha da Fraternidade de 2013 (à esquerda) e de 1992 (à direita).
 Texto: Giselle Pereira [1]

 Maiores informações sobre a CF2013: http://www.cf2013.org.br/home.html




[1]Membro da Pastoral da Juventude do Regional Leste 1 da CNBB e Coordenadora da Pastoral da Juventude do Vicariato Episcopal Urbano.
[2] Manual da Campanha da fraternidade 2013, p. 139.
[3] Trecho extraído do hino da Campanha da Fraternidade de 1992, intitulado: “Queremos ser jovens”.
[4]CELAM, Documento de Aparecida, n. 44.
[5] Texto-base da Campanha da Fraternidade 2013, p. 33.
[6] CNBB, Documento Evangelização da Juventude, n. 47.
[7] Bento XVI. Discurso aos jovens brasileiros, em 10 de maio de 2007.



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